O luto de um cachorro

A Cambalhota morreu. Já estava curtindo a aposentadoria há um tempo, nem fugia mais. Ou quando fugia, voltava rápido demais como quem estava achando um "tédio" a rua. Era até engraçado ela olhando pra nós com cara de "fecha de uma vez o portão". Lá se foram quase 13 anos desde que ela chegou, ainda filhote, com a língua semi roxa (era filha de uma chow chow com pai desconhecido). Já tem alguns dias que ela partiu, informei apenas os mais próximos justamente para evitar lamentos. É claro que fico triste, quase 1/3 da minha vida ela foi protagonista do meu cotidiano. Isso é confirmado todos os dias nas lembranças do Google fotos. Por outro lado, morrer é uma certeza (a única, aliás). Prefiro direcionar os pensamentos para um "que bom que ela viveu", porque no final foi isso mesmo que aconteceu. Cambalhotamos! 
Dado o contexto, quero falar sobre algo que nem sei se realmente existiu ou é algo montado na minha cabeça: o luto de um cachorro. Na frente da casa da minha mãe tem um cachorro muito bonito chamado "Bob". Durante muitos anos ele teve uma dona que deixava ele preso em uma corrente, mesmo com um pátio fechado para ele poder correr. Era até meio triste essa época. Ou quando soltavam ele, ele corria bem feliz pelo pátio e a dona reclamando o tempo inteiro que ele não parava. Ai a dona morreu e lili cantou pro Bob. Nunca mais vi ele em uma corrente, ainda bem. A partir desse dia a Cambalhota ganhou um parceiro pra bater boca a cada carroça, carro, caminhão de lixo ou cavalo que passava. Uma competição de quem se incomodava mais com o que passava na rua. 
A Cambalhota era afrontosa. Quando fugira, fazia questão de passar ali no portão dele e fazia xixi pelo lado de fora enquanto ele enlouquecido invejava a "liberdade" dela. Ela não latia. Só ia ali tranquilamente, provocava e saia para o arroio, a paixão dela. Sempre que eu via o portão da minha casa se abrir a Cambalhota saindo correndo eu olhava para o Bob ele tava lá com a cara de "lá vem aquela metida". 
Na semana passada fui na casa da minha mãe e agora, sem cachorro, abri o portão direto sem me preocupar pois não tinha cachorro para fugir. Esperando o portão abrir registrei uma cena que me pegou demais: o Bob olhando pra dentro da minha casa na expectativa da Cambalhota sair. Ele olhou, olhou, levantou o rabo e nada. Depois deu meia volta e voltou pra casinha dele. Concluí naquele momento que ele tinha acabado de saber que a vizinha da frente não ia aparecer mais. 



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